O mundo em que vivemos tem-se tornado numa amálgama de dúvida e perigo. Nada de novo até aqui. E por mais optimistas que sejamos ou finjamos, os factos trágicos sucedem-se uns atrás dos outros, ininterruptamente: guerras entre países, aviões que caem, já para não falar nos factos mais comuns do nosso dia-a-dia, como as guerras ‘caseiras’ entre familiares e amigos (e inimigos), aparentemente vistas como ‘normais’ entre as ‘espécies’.

 

Dessas guerras, nascem os mais execráveis sentimentos, que são (não parecem) igualmente responsáveis pela fragmentação deste planeta. São várias as sementes (más) que plantamos: ódio, cinismo, deslealdade, hipocrisia, cobiça, medo e por aí afora. Tudo isto, porquê? Porque, esquecemos que a maior pobreza é, e será sempre, a pobreza da FALTA DE CONSCIÊNCIA. E a falta de consciência começa com uma palavra chamada incerteza.

 

zen69_82

Artigo publicado na Zen Energy Nº69 (edição de Outubro de 2014)

É um costume pensarmos que se tivermos dúvidas é porque nos falta certeza. Mas, uma coisa não exclui a outra. Pelo contrário. No antídoto para a cura (certeza) tem de haver sempre uma pequena injecção do vírus (dúvida). Certeza não significa ausência de dúvidas e sim seguir em frente, apesar de todas essas dúvidas. Explicar certeza é o mesmo que tentar decifrar a complexidade do amor, porque não se vende em farmácias nem se vende ao quilo no mercado, ou seja, a explicação está somente na vivência do ‘conceito’. Ter certeza de quê? Como viver a certeza? Como defini-la? Certeza de que apesar do caos, que parece dominar este mundo, há uma saída para a Luz, sempre. Que apesar das guerras no mundo, tudo pode ser mudado quando acabamos com as nossas guerras caseiras e, principalmente, as nossas batalhas internas. Gerir o caos não é descartarmo-nos da responsabilidade, porque ser responsável não implica ir para todas as guerras. Todos temos as nossas contendas com o ego e ainda bem. É dessas lutas que nós nos tornamos mais fortes e, quiçá até mais lúcidos e experientes. Enfim, mais preparados para essa certeza absoluta. Para as pessoas que não têm essa certeza, ela pode parecer loucura completa. Um dos segredos é não deixar que esse caos nos detenha. Mas, não confundamos optimismo com certeza.

 

Certeza absoluta é um trabalho enorme, metafísico, de mente sobre a matéria, de desafio às leis da gravidade, enfim um exercício que apenas alguns até agora conseguiram viver. Optimismo, numa definição simplista, seria algo como, mente sobre emoção, um trabalho bom, sem dúvida, mas ainda muito longe dessa certeza absoluta, pois está muito arraigado a um registo controlado da emoção. E, por isso, é preciso ter muito cuidado. Quando temos muita certeza de que estamos a ver alguma coisa com clareza, normalmente é quando estamos mais cegos. Daí ser necessária não só a experiência do erro e a humildade em consertá-lo como a ‘sorte’ de ter pessoas sábias na nossa vida. Essa fórmula também não está nos livros nem em laboratórios. Está dentro de nós. E quando estamos prontos, os mestres aparecem.

 

Com isto, lembro a história de um kabbalista que se punha a sorrir ininterruptamente, a gargalhar e a dançar como nunca tinha feito em toda a sua vida, enquanto o mundo inteiro desabava ao redor. No mínimo, uma conduta preocupante. Mas, a certeza desse sábio era tão grande, de que o Criador estava em tudo, que nenhuma dor, nenhum medo e nenhuma negatividade conseguiam tocá-lo ou transtorná-lo. Obviamente que os alunos ficaram muito preocupados e começaram a achar que o professor tinha enlouquecido. Num ápice, perguntaram-lhe como poderia estar tão alegre no meio de tanta escuridão, ao que ele respondeu: «Tenho certeza absoluta». Ora, para mim, esse é o caminho, de fazer a minha parte, que primeiro começa por vencer o inimigo interno e logo a seguir ser responsável pelos meus actos para a seguir ser uma influência positiva para os outros, sem máscaras, sem medos, dando amor aos outros e estando disposto a receber o amor dos outros, porque onde há verdadeiro amor incondicional haverão sempre muitos milagres.