“A adaptação a novas rotinas e novos desafios, por regra, é algo que consideramos pouco fácil.”

O mundo e todos nós, sem exceção, atravessamos uma fase de mudança e adaptação que talvez nunca tivéssemos imaginado atravessar. De um modo geral, como descreveria toda esta fase, incluindo o seu lado negativo e positivo?

É uma fase que os nossos antepassados já atravessaram (a gripe espanhola, por exemplo, matou 130 milhões de pessoas em todo o mundo) e com consequências devastadoras, até porque os meios de resposta eram menores do que os que temos atualmente! Portanto, a única forma de descrever esta fase é com a “naturalidade” que ela pressupõe! Com aspetos bastante negativos do ponto de vista económico e sobretudo do ponto de vista do bem-estar físico e emocional da Humanidade. É de esperar maior tendência para a ansiedade, depressão, aborrecimento, falta de sentido, irritabilidade, entre outras que nos retiram qualidade de vida. Nos aspetos positivos destaco a evidência de que a capacidade e a sabedoria necessárias a manter o equilíbrio emocional são, neste momento, cruciais e mostram bem que as nossas competências emocionais são tão importantes ou mais do que tudo o que possamos aprender nas escolas ou universidades… Aliás, é chegada a altura de as nossas escolas e Universidades incluírem nos programas curriculares competências para a vida. Competências não técnicas, as chamadas soft skills. Na H-partners-for-life, em pareceria com a Universidade Autónoma de Lisboa, já conseguimos contruir uma pós-graduação que trabalha estas áreas. Na H-executive estamos a preparar uma disciplina sobre competências para a vida que vamos apresentar a parceiros universitários, bem como temos preparados dois programas específicos para este contexto, de intervenção nas organizações para evitar, tanto quanto possível, as consequências acima enunciadas. Também quero acreditar que a Humanidade sairá mais solidária com a própria espécie e mais consciente do impacto das suas decisões no sistema maior do qual faz parte: seja a família, a organização onde trabalha, sociedade em geral ou o planeta!

Qual poderá ser, na sua opinião, o impacto na nossa economia e no mundo do trabalho?

O fator económico mais preponderante de todos é a saúde de quem trabalha! O COVID-19 é, do ponto de vista físico, mais perigoso para os seniores, mas muito mais devastador, do ponto de vista emocional, para as faixas etárias em idade ativa/produtiva. A alteração das rotinas, as responsabilidades acrescidas (em particular, pais com filhos em idade escolar), o confinamento, o trabalho a partir de casa em regime obrigatório, e sem grandes certezas sobre o fim à vista… São mais que muitos os fatores que nesta conjuntura podem despoletar estados emocionais disfuncionais ou mesmo burnout. Pessoas doentes não produzem, ou produzem pouco e “mal”, com as consequências óbvias para os setores da economia que ainda estão a mexer. Portanto, as organizações precisam de ficar atentas a estes fenómenos naturais! Tentando manter ao máximo a saúde e a integridade física e emocional dos seus colaboradores. Isto faz-se com criatividade, flexibilidade, adaptabilidade, lideranças conscientes e mente aberta

Será difícil para a grande maioria que se encontra em regime de teletrabalho adaptar-se a esta nova realidade? Quais poderão ser os principais desafios?

A adaptação a novas rotinas e novos desafios, por regra, é algo que consideramos pouco fácil. A boa notícia é que podemos reaprender a adaptabilidade, que aliás é uma característica inata à condição do Ser Humano. Se não fossemos altamente adaptáveis, não existiríamos enquanto espécie. Desta vez, os desafios prendem-se com: manter a saúde física, mental e emocional; manter o foco; manter uma comunicação eficaz através de meios tecnológicos e sem a presença física do outro; manter uma boa colaboração em casa, enquanto família, e no trabalho enquanto profissional; manter a motivação; manter a produtividade de forma saudável; equilibrar os diferentes papéis que desempenhamos na vida (pais, educadores, profissionais, filhos, companheiros, etc.). No caso de team leaders: como liderar uma equipa com um fosso espacial entre o team leader e os seus colaboradores; como manter a relação próxima com a equipa; como manter a sensação de pertença e alimentar a cultura da organização; etc.

Lançaram recentemente dois conceitos relacionados com o regime de teletrabalho. Qual é o objetivo e que falhas pretendem colmatar?

Há dois anos atrás, em entrevista a outra publicação, referi que a criatividade seria a skill mais procurada pelo mercado de trabalho e mais bem paga num futuro próximo! Nessa altura, criámos a figura do Embaixador da Criatividade®, que tem como objetivo treinar as organizações a CRIAR, seguindo cinco passos específicos, todos “fora da caixa”! Recentemente lançámos dois conceitos: “Remote Smart Working – keep calm & be a smart learner” e o “Remote Team Management – Everything the Team Leader needs to BE & to DO, to HAVE a remote TEAM”, mais especificamente pensados para este contexto concreto de teletrabalho. O objetivo é ajudar as organizações e os seus colaboradores a atravessarem esta fase de crise, com o máximo de equilíbrio entre a saúde e a produtividade. É exatamente isto que a COVID-19 “ameaça”: a saúde e a economia! Então, de forma criativa e flexível, há que encontrar formas de compensar estes dois fenómenos, sob pena de descompensarmos enquanto sociedade.

Como funciona?

Como não podia deixar de ser, funciona à distância, através de plataformas de vídeo conferência. Esta é a forma “logística”. No que respeita concretamente a cada programa, o “Remote Smart Working”, com conteúdos completamente disruptivos, visa treinar, de forma inovadora e criativa, a adaptabilidade, a flexibilidade, a motivação, o foco, a gestão de emoções e a rentabilização da energia física. Este programa foi desenhado a pensar na generalidade dos colaboradores de uma organização. Já o “Remote Team Management”, é um programa de intervenção desenhado para as especificidades dos desafios concretos dos team leaders neste contexto de crise e teletrabalho. Qualquer dos programas é breve e cirúrgico. Nenhuma das sessões tem mais de 30 minutos e decorrem com a frequência de três em três dias.

Que vícios podem surgir trabalhando a partir de casa e que, consequentemente, interferem com a produtividade e até com a auto-motivação?

O facto de estar sempre a trabalhar de casa pode induzir-nos falta de disciplina de horários, mistura de papéis (o “eu profissional” e o “eu pessoal”), desmotivação e tentação de fazer outras coisas, preguiça, necessidade de comer demais, refilar, descuidar da imagem… Por um lado, tentações de comportamentos disfuncionais; por outro, omissões de comportamentos necessários! Para minimizar o impacto destas situações é necessário tomar consciência destes “perigos”, identificar que necessidade emocional lhes está associada e aprender o que fazer para que nos possamos manter motivados, focados, saudáveis e felizes.

Por: Catarina Cruz