Todas as pessoas gostam de rir, mas nem todas riem tanto quanto gostariam. A vida contemporânea gera cada vez mais fatores de stress, ansiedade, cansaço e saturação, que nem sempre se coadunam com a disposição para rirmos com vontade e despreocupação.

Segundo estudos recentes, apesar do desenvolvimento das sociedades modernas ter aumentado consideravelmente os rendimentos e a qualidade de vida, não se verificou semelhante aumento nos níveis de felicidade das populações. De um modo geral, as responsabilidades e os encargos dos adultos parecem limitar os momentos de boa disposição. Assim, enquanto uma criança ri cerca de 300 vezes por dia, um adulto só ri, em média, entre 10 a 20 vezes por dia. De acordo com dados disponíveis, em meados do século passado, as pessoas riam três vezes mais do que hoje. E é pena que assim seja, porque os benefícios do riso para a saúde física e mental estão amplamente comprovados. Rir diminui o stress, aumenta a tolerância à dor, melhora o sistema imunitário, estimula a criatividade, contribui para a autoestima e aproxima-nos dos outros, criando laços de simpatia que atraem as pessoas. Ria e contagie quem o rodeia O riso contagia, sendo por isso um meio natural de aproximação social, de convívio descontraído e de união entre as pessoas. Em suma, o riso e o humor ajudam a aliviar a tensão emocional, tornam a pessoa mais positiva e menos sujeita a atitudes negativas perante os problemas da vida quotidiana. Embora estejam intimamente associados, o riso e o humor podem distinguir-se. O riso acompanha-nos praticamente desde que nascemos. Podemos rir como mera reação espontânea a uma situação de alegria ou perante uma notícia agradável, enquanto o humor pressupõe um determinado contexto social e um tipo de construção cultural que implica normalmente uma postura reflexiva de perplexidade em relação a determinada pessoa ou circunstância, criando um sentido novo e inesperado para a realidade em causa. Duas teorias relevantes Das várias teorias elaboradas ao longo do tempo pela Filosofia e pela Psicologia partilho duas pertinentes. A primeira, e certamente a mais antiga, é a Teoria da Superioridade, que remonta, pelo menos, a Platão. Segundo a Teoria da Superioridade, o humor seria elaborado com o objetivo de nos rirmos da ignorância, embaraço ou inabilidade dos outros. O prazer manifestado pelo riso perante o ridículo alheio seria assim o reconhecimento implícito da superioridade moral ou intelectual de quem ri, já que é mais fácil reconhecer e criticar as fraquezas e os erros dos outros do que os nossos. Este tipo de humor é, por vezes, criticado como sendo potencialmente ofensivo quando aborda personagens e situações relacionadas com religião, raça, género ou identidade dos outros, questões que são cada vez mais sensíveis numa época sujeita a grandes pressões e divisões de carácter ideológico e social. A segunda é a Teoria da Incongruência, que se verifica sempre que o riso é provocado pelo inesperado, pelo absurdo da situação ou da piada. Exemplos típicos são a contradição, em que duas coisas não podem ser simultaneamente verdadeiras; a ironia, em que a pessoa diz o contrário do que realmente quer significar; ou a caricatura, em que a distorção ou o exagero salientam os aspetos risíveis. Para Freud, o humor é uma forma sublimada de lidar com os problemas da existência humana. É um mecanismo de defesa, cujo objetivo consiste em minimizar o sofrimento existencial. Neste sentido, o riso e o humor apresentam-se como elementos essenciais no processo de libertação das tensões emocionais, na medida em que fazem prevalecer o princípio do prazer sobre o princípio da realidade. Uma vez que o humor se baseia na recusa da aceitação das condições impostas pela realidade, não pode deixar de ser transgressor. É por isso que o espírito de humor e algumas piadas correm eventualmente o risco de pôr em causa as convicções de alguém. A ambiguidade, a dissensão, o paradoxo e o duplo sentido fazem parte integrante do sentido de humor. É o reconhecimento da dimensão simbólica do humor que faz com que o sujeito seja capaz de rir de si mesmo e de tomar consciência de que a sociedade não é perfeita.