Toda a ajuda exterior tem efeito transitório se não se sustentar no empenho e na mudança gradual de quem recorre à ajuda. A prática regular, disciplinada, de exercícios no quadro de um processo que entre nós se convencionou designar de ‘meditação’ abre portas a essa mudança.

 

Ora, os nossos processos de aprendizagem ao longo da vida conduziram-nos à noção de que toda a fonte de felicidade está no exterior, fora de nós. Por repetição sistemática – alimentada culturalmente – essa noção tornou-se uma convicção (uma crença) na qual baseamos, consciente e inconscientemente, os nossos padrões de comportamento. E estes nem sequer geralmente os questionamos…

Como exteriorizamos normalmente esta percepção? Quer esperando algo idealizado (emprego, companheiro, casa, corpo, saúde, felicidade ou outro), quer alimentando o nosso sistema de crenças dualistas (de bem e mal, de acordo com os padrões standard, de sorte e azar, de vítima e vilão…), quer delegando em outros a nossa fonte de felicidade, permitindo que eles façam a gestão dos nossos índices de bem-estar. Assim, procuramos o médico, o comprimido, o terapeuta, o guru, o livro, o que for, que nos garanta o céu, o reino perdido de Shambhala, a felicidade…

 

Ora,os processos terapêuticos clássicos são, geralmente, longos e onerosos, e os recursos que naturalmente exigem acabam por nos afastar deles. Mesmo quando tentamos abordagens mais breves e transformadoras, os resultados que são alcançados são indiscutivelmente eficazes, mas não longamente perduráveis. E porquê? Nada está errado nem com o terapeuta, nem com a técnica. Mas, uma parte (a mais importante) do processo de triangulação está ausente ou assume um papel (quase) passivo: a própria pessoa.

A transferência de responsabilidades do cliente para o terapeuta é a manutenção de um determinado status quo, o que vem perpetuar a ilusão de que a resolução dos problemas está sempre fora de si mesmo. Mudar significa assumir a responsabilidade pelo próprio processo de mudança (self empowerment). Chegamos ao sofrimento, à dor e à doença pelo nosso sistema de crenças (pensamentos). O veneno só é extirpado pelo próprio antídoto, cuja constituição é parte integrante de si mesmo – a vacina é o próprio vírus ou, como dizem os orientais, os desejos são fonte de iluminação. Assim, só os nossos próprios pensamentos – fonte do nosso mal-estar e disfunções – podem curar e tratar-nos.

 

Meditação terapêutica

Na meditação toma-se consciência de si mesmo: olha-se o próprio corpo, emoções e pensamentos. Assim, a meditação é um processo terapêutico em que o meditador se torna no próprio terapeuta. Como começar? Como andar e por onde ir? Como lidar com as dificuldades? Como proceder quando a vontade afrouxa? Como monitorizar o processo? Como saber avaliar e integrar resultados? Estas e muitas outras questões colocam-se natural e legitimamente para quem começa.

Mas, tudo se aprende, desde que se deseje genuinamente aprender e mudar. Por esse motivo, sustento os processos terapêuticos que oriento entre sessões individuais de ‘coaching transpessoal’ e aulas de meditação – ajudando as pessoas a descobrir-se.

Como é que a meditação é terapêutica? Em primeiro lugar, esta prática permite aquietar a agitação do corpo e dos pensamentos; à medida que os pensamentos vão deixando de ser tão frequentes, a mente fica mais clara, tornando mais acessível a consciência dos factos e dos fenómenos (por exemplo, é nesta fase que a percepção sobre as relações de causa-efeito dos fenómenos se reformula naturalmente e a natureza compassiva emerge sem qualquer esforço e livre de qualquer dogma). Ao fim de se sentar algumas vezes para meditar – voluntária, consciente e disciplinadamente –, quem se senta não é mais o mesmo. E é esta mudança que faz toda a diferença: ninguém está lá para dizer «o que» e «como» mudar além da própria percepção do meditador/observador.

 

Os mecanismos da acção terapêutica

Os mecanismos da acção terapêutica da meditação são enumerados na teoria S-ART desenvolvida por investigadores das ‘neurociências’:

  1. Tomada de consciência ou autoconsciência (Self-Awareness)
  2. Ajustamento/Adaptação ou Autocontrolo (Self-Regulation)
  3. Transformação/Mudança/Superação ou Autotranscendência (Self-Transcendence)

 

A meditação ‘cura’,porque: (a) ajuda a descobrir a razão oculta de pensamentos e comportamentos adoptados inconscientemente; (b) a descoberta é genuína, pois é feita pelo próprio, por si mesmo e para si mesmo; a sua eventual partilha com um mestre ou coach-terapeuta serve apenas para ir aferindo resultados e ajustá-los ao próprio processo.

Artigo publicado na Zen Energy Nº69 (edição de Outubro de 2014)