Quanto mistério rodeia o amor! Quanto se escreveu e escreve em seu nome! Ao que parece tudo gira em volta do amor e, contudo, somos pouco preparados para o aplicar nas suas diversas formas de manifestação.

 

Os seres humanos por vezes esquecem-se da verdadeira essência que o privilegia. De vez em quando aparece um mártir que deixa os seus esforços gravados na história para nos lembrar eternamente desse lindo sentimento…mas, a força das evidências tem mostrado que o amor ou a falta dele está intrinsecamente ligado ao sofrimento. Sofremos por ter amor e o medo de o perder ou sofremos porque tivemos oportunidade de amar e não aproveitámos. Ter amor e deixar de o ter pode realmente trazer grande dor e sofrimento. Mas, quem nunca o experienciou queixa-se de um vazio enorme que da mesma forma também sofre.

 

Relações amorosas saudáveis

Talvez não exista uma forma ideal ou até uma receita de relacionamentos amorosos perfeitos ou saudáveis, a verdade é que existem pilares fundamentais que são comuns aos casais que se dão muito bem e são felizes com a sua relação. Estas pessoas nada têm mais que as outras, apenas têm a capacidade de saberem viver em comunhão sem perderem a individualidade. Aquilo que verdadeiramente as diferencia é o facto de saberem alimentar a amizade entre o seu par sem perderem de todo a paixão e o romance. Estas pessoas investem de forma activa e sistematicamente na solidificação da sua amizade. E como o fazem?

  • Investem no conhecimento mútuo;
  • Conhecem e aceitam o seu par;
  • Conseguem identificar as vulnerabilidades do outro e gerem-nas com inteligência emocional;
  • Estão atentos ao presente através das mudanças do seu parceiro amoroso e não olham só para o seu umbigo achando que o outro tem que se anular;
  • Não basta conhecer o percurso do seu parceiro, é preciso saber aquilo de que ele(a) gosta hoje, conhecer as suas preocupações, os seus sonhos;
  • É necessário um diálogo aberto, franco e regular. Estes casais conversam os assuntos de ambos sem se massacrarem mutuamente, havendo um verdadeiro esforço para uma boa união.
  • Estes casais admiram-se mutuamente e expressam de forma aberta e clara essa admiração;
  • Fazem salientar o que cada um tem de melhor;
  • Estão presentes nos melhores e piores momentos;
  • Dão apoio emocional em vez de criticar;
  • Funcionam como uma equipa;
  • Elogiam de forma sincera e regular;
  • Ceder é algo fácil nestes casais;
  • Todos estes pontos confinados num único: RESPEITO.

 

É certo que nem todas as pessoas são feitas para viver em comunhão. Contudo, é possível que estes relacionamentos existam sem que o casal viva debaixo do mesmo tecto. Todas estas situações são possíveis quando a palavra de ordem é AMOR, apoiando-se no respeito. Acima de tudo é necessária uma competência: abdicar de algumas coisas individuais em prol do bem comum. Quando na relação existe um braço-de-ferro para ver quem é mais forte dá-se lugar à negociação e, para que a relação seja duradoura tem-se consciência que não se pode ‘ganhar’ sempre. Sem nos esquecermos que estes casais normalmente têm um projecto comum, caso contrário a relação anda sem foco fugindo à harmonia e bem-estar. Uma boa relação é consolidada como uma boa ‘empresa’ onde se visa um único lucro: o bem-estar do casal.

 

A vida de um casal

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Artigo publicado na Zen Energy Nº 64 (edição de Maio de 2014)

Acredito que não existam casais perfeitos com relações amorosas perfeitas como não existem pessoas perfeitas. Os seres humanos têm defeitos, têm falhas, assim como as suas relações. Mas, o que verdadeiramente me convence é que há pessoas mais desenvolvidas e civilizadas que quando amam esforçam-se para as coisas darem certo. Claro que haverá pessoas que não foram feitas para terem um relacionamento sério e duradouro e, essas, quando vivem com alguém é-lhes difícil uma adaptação sentindo que estão ‘amarradas’ com uma corda no pescoço, como se fosse uma trela. Confundem compromisso por falta de liberdade. Nada disso será verdade, apenas não foram feitas para casar ou ter um relacionamento sério e duradouro. Há que respeitar essas pessoas. No entanto, quem casa com elas vive um verdadeiro inferno, porque ao tentarem mudá-las, confrontando-as com um compromisso, os conflitos começam. Estas pessoas precisam de se sentir livres, sem compromissos, tendo apenas como objectivo o seu sucesso individual. Não quer dizer que numa boa relação não existam alguns conflitos, pois o ciclo de vida de um casal tem altos e baixos que muitas das vezes colocam a relação à prova. São estas crises que fazem fortalecer a relação e quando os pilares estão bem consolidados existe a possibilidade de sair da crise fortalecidos com a dificuldade. Caso contrário, quando os casais não investem nestes pilares o que acontece é a ruptura. Mesmo que ainda possa haver um grande sentimento entre os dois, o amor individual é mais forte que o amor comum. Existem casos, em que um dos parceiros ainda quer lutar pela relação enquanto o outro quer escapar, pois já não encontra forças para continuar e resolver as incompatibilidades. Há casais que se divorciam mesmo quando ainda continuam a amar. Para tal não acontecer é preciso reconhecer que se ama e que se quer continuar a amar.

Ser solidário, saber amar e partilhar

Talvez existam pessoas para viverem sozinhas e outras para viverem numa relação amorosa fortalecida e confortável. Eu acredito que o ser humano é um ser gregário precisando de ter um grupo e alguém em quem possa confiar plenamente, constituindo a sua própria família. Será que os tempos de hoje estão a estragar o melhor que o ser humano tem: ser solidário, saber amar e partilhar?

Hoje em dia, no meu consultório cada vez mais aparecem pessoas tristes com os relacionamentos amorosos. As pessoas estão mais egoístas, pensam só em si mesmas, deixam de partilhar. Falam de uma ‘falsa independência’ tendo como base a individualidade. Os relacionamentos amorosos variam nessa relação directa, ou seja, relacionamentos de momento ou como hoje se chama ‘relacionamentos coloridos’. Não existe relacionamentos com compromisso, apenas passagens amorosas onde o deleite é o prazer único e simplesmente! Muitas pessoas andam distraídas com tudo que é momentâneo e fácil. E como nós, seres humanos, somos reflexo das nossas emoções quando estamos sem estabilidade amorosa e isso reflecte-se nos nossos comportamentos e atitudes em termos gerais na nossa vida, trazendo, para alguns/ muitos, estados depressivos e de ansiedade e outras patologias.

 

Como se identifica o primeiro sinal de que uma relação pode estar em risco?
Existem alguns sinais que são indicadores quando uma relação está vulnerável. Normalmente, identificam-se na forma da comunicação do casal; o aparecimento de uma terceira pessoa ou a quebra da sexualidade. Quando as discussões fazem parte do dia-a-dia do casal e que surgem ‘por tudo e por nada’ e se sobrepõem às conversas sadias e positivas, este pode ser o sinal de alerta. Outro sinal de perigo é a crítica. Nos casais em crise a crítica é frequente e acaba por transformar-se numa lista de ataques pessoais que corrói a relação. Os membros do casal deixam de expressar as suas necessidades e passam a atacar-se constantemente. É muito frequente ouvi-los iniciar as suas frases com: ‘TU…’ em vez de ‘EU…’.
Este sucessivo “escalavrar” leva sistematicamente ao aparecimento de outro sinal de perigo: o desprezo. Na realidade, à medida que as dificuldades de comunicação se complicam, os membros do casal deixam de se preocupar com o respeito mútuo e dirigem-se por um caminho muito arriscado, marcado por expressões sarcásticas que são muitas vezes descritas como piadas inofensivas. Contudo, elas visam um humor mais sarcástico do que propriamente inofensivo para ofender o parceiro amoroso/cônjuge. Estas situações levam muitas, das vezes, à violência verbal e física.

Um outro sinal de perigo tem a ver com a postura de defesa que um/ou os dois se coloca em relação ao outro. A posição do braço de ferro como acima falamos é também um dos grandes factores de risco para uma relação amorosa. O orgulho impede a capacidade de pedir desculpa e nenhum dos membros do casal consegue perceber que errou. Os pedidos de desculpa esgotam e as tentativas de reconciliação são cada vez menores dando lugar a amuos ou graves discussões. Quando esta panorâmica atinge um nível tão degradável o ambiente familiar é totalmente insuportável.

Ainda um dos frequentes sinais no final desta escalada é o isolamento. Algumas vezes um dos membros do casal isola-se sobre si mesmo para evitar as críticas e as discussões. Estes casos são mais evidentes em casais com relações de longa data. Como por exemplo, com o pretexto do marido ressonar a mulher vai dormir para outro quarto, como solução de não ter que ‘aturar’ o protestar do marido. Quanto maior for o afastamento entre o casal, menor será a frequência das meiguices. Não raras vezes, o comportamento ‘público’ destes casais não indicia sequer que se trata de uma relação amorosa – não trocam carinhos, não dão as mãos, etc. Mais parece duas pessoas que se suportam e se detestam!

 

Apoio psicológico/tratamento

Quando os casais sentem que não têm capacidade de gerir os próprios conflitos e alguns sinais de alarme surgem, ‘devem’/podem, de comum acordo, pedir apoio psicológico especializado. Sozinhos, provavelmente, já não darão conta do recado e, se a situação já estiver muito avançada, tentar resolver sozinhos a situação, muitas das vezes, leva mais rapidamente à separação. Quando as discussões ou o mal-estar se prolongam por semanas ou meses vale a pena parar para equacionar a hipótese de recorrer à terapia.
A terapia familiar e conjugal permite que os casais possam trabalhar as suas diferenças e voltarem a encontrar o equilíbrio.

Quando nada disto é possível e o culminar é a separação é fundamental trabalhar o luto da relação para que ambos sigam um novo caminho saudável e feliz e ninguém fique em prejuízo.

 

15 Razões para a separação de um casal

1. Desejo de ser independente.
2. Ficar atraída por outra pessoa.
3. Infidelidade.
4. Incompatibilidade física.
5. Menor atracção para a pessoa de uma forma sexual.
6. Falta de manutenção apropriada do corpo, como tornar-se demasiado gordo.
7. Conflito nos gostos e desejos.
8. Ser irritante.
9. Comparar o homem ou mulher com outros constantemente.
10. Transmitir conselhos não solicitados o tempo todo.
11. Dependência de álcool ou drogas.
12. Deterioração da saúde de um dos cônjuges ou que sofrem de doenças incuráveis, como o VIH.
13. O abuso físico e mental, apresentando tendências sádicas.
14. Ignorar ou menosprezar os amigos e parentes de um cônjuge.
15. Impotência ou incapacidade de ter filhos.

 

Luto de uma relação

Nos nossos dias muitas separações conjugais/amorosas têm acontecido. Divórcio/separação tornou-se lugar-comum, onde crescem novas formas de família. Os separados educam tanto os seus como os filhos dos outros. Geram-se conflitos e muita confusão de papéis se impõe na retomada da nova identidade para novamente entrar na vida social.
Além desta nova atitude antecede a dor da perda e o sofrimento. Para alguns, a separação é um alívio, mas para muitos outros acresce um sofrimento enorme levando mesmo à susceptibilidade de sofrer uma perturbação emocional profunda, como é o caso da depressão Major. Geralmente, associamos perda ao luto, existem situações na nossa caminhada que são tão intensos que vivemos uma perda como um luto. Por exemplo, as separações. É uma dor que precisa ser enfrentada com realismo e muita ajuda pessoal, espiritual e muitas vezes acompanhada por algum profissional de saúde.