Na Internet, nos livros e revistas que encontramos nas bancas há mil e uma receitas para a felicidade. Como é que podemos saber o que funciona? Afinal, o que é a felicidade? Quais são os sinais que nos mostram que uma pessoa é feliz? Os bens materiais contam ou não? A felicidade estará mesmo nas pequenas coisas?

Enquanto psicóloga, não encontro melhor guru que a ciência. Felizmente, ela tem-nos mostrado de forma muito concreta o que é que as pessoas felizes têm em comum e o que é que cada um de nós pode fazer para ser mais feliz.

O que é?

A felicidade é um estado de bem-estar que se traduz na sensação de termos uma vida boa, com significado. É um profundo contentamento, mas não é estarmos sempre alegres. Também não é sentir sempre prazer e evitar a dor. Pelo contrário! Uma das coisas que a ciência nos mostrou nos últimos tempos é que todas as emoções podem ser positivas em alguns contextos e negativas noutros, independentemente de serem agradáveis ou desagradáveis. Por exemplo, quando perdemos o nosso animal de estimação, não só não faz sentido que fujamos da tristeza – por mais desconfortável que ela seja –, como é nela que desejamos mergulhar. Permitirmo-nos estar tristes num momento como esse também contribui para a nossa felicidade. Outro exemplo: se uma mulher estiver numa relação abusiva e desejar terminá-la pode reconhecer que seria mais feliz se não amasse tanto o seu companheiro. Neste caso, uma emoção agradável (amor) não é a emoção desejada. Outra certeza que a ciência nos oferece é a de que a felicidade é o bem mais desejado pela esmagadora maioria dos seres humanos – mais do que a riqueza, a obtenção de bens materiais ou a garantia da vida eterna. E é assim em todos os cantos do mundo. Também é isso que observo na minha prática clínica. Quando pergunto “Qual é o seu objetivo de vida?”, ouço invariavelmente a mesma resposta: “Ser feliz”.

O que influencia a nossa felicidade?

Há muitos fatores que influenciam o bem-estar e a sensação de felicidade: a base genética com que nascemos, as circunstâncias em que crescemos, aquilo que vamos conquistando ao longo da vida, o estado civil, a qualidade das nossas relações e até os vizinhos! Mas aquilo que hoje sabemos é que grande parte da nossa felicidade está sob o nosso poder. Então, o que é que cada um pode fazer para ser mais feliz?

  • Construir laços. Somos mais felizes quando abrimos o coração, quando nos expomos de forma autêntica, quando nos vulnerabilizamos e construímos amizades íntimas. Não é preciso que tenhamos uma mão cheia de amigos íntimos. Aquilo que a ciência mostra é que aquilo que pode fazer toda a diferença é a frequência com que partilhamos os sentimentos e contribuímos para que outra pessoa faça o mesmo. Até podemos ter apenas uma ou duas pessoas em quem confiemos abertamente, com quem sejamos capazes de nos expor e por quem sintamos um interesse genuíno, independentemente de elas falarem sobre batatas ou divórcio. Aquilo que importa é que nos liguemos com frequência a essas pessoas – que estejamos “lá” para elas e que nos sintamos amparados.
  • Cultivar a bondade. Todos sabemos que não somos a Madre Teresa de Calcutá, mas há muito a aprender com este e outros exemplos de voluntariado e dedicação genuína ao bem-estar dos outros. A ciência também tem mostrado que somos mais felizes e deprimimo-nos muito menos quando nos importamos com o que os outros sentem e fazemos o que está ao nosso alcance para melhorar a vida das pessoas à nossa volta. Isso pode passar por envolvermo-nos em ações de voluntariado, mas também pode passar simplesmente por prestarmos mais atenção à nossa comunidade. Há sempre alguma coisa que podemos fazer e que melhora a vida de outras pessoas. É assim quando damos boleia a um colega que está temporariamente sem carro, é assim quando preparamos refeições para alguém que acabou de passar por um divórcio e pode não estar com cabeça para tal, é assim quando nos disponibilizamos para traduzir um documento para um amigo que não domina uma língua estrangeira.
  • Cuidar do corpo. Não, a felicidade não tem rigorosamente nada a ver com campeonatos de culturismo ou concursos de misses. Somos mais felizes quando respeitamos e nutrimos o corpo de forma saudável. Isso inclui a prática regular de exercício físico, alimentação regrada e descanso adequado. Uma das coisas que a ciência nos tem mostrado de forma recorrente é que o desporto é um excelente aliado no combate à depressão e à ansiedade. Por outro lado, há estudos que correlacionam o consumo excessivo de açúcar à depressão.
  • Estabelecer e cumprir metas. Não é a felicidade em si mesma que promove o bem-estar. É a constante busca, são os desafios que colocamos a nós mesmos e que vamos superando. Quando nos envolvemos regularmente em atividades que nos desafiem, que nos atirem para fora da zona de conforto, mas que estejam adequadas às nossas capacidades sentimo-nos vivos e entusiasmados. Para algumas pessoas, isso passa por correr maratonas, para outras é aprender a tocar um instrumento e para outras ainda será a progressão na carreira. É uma espécie de círculo virtuoso, que implica que façamos aquilo de que gostamos e gostemos cada vez mais daquilo que fazemos (seja em que área da vida for).
  • Encontrar um propósito. Não é por acaso que hoje se fala tanto em espiritualidade. Ela está diretamente relacionada com a possibilidade de encontrarmos um significado para a nossa vida. Aquilo que a ciência mostra é que uma vida com propósito traz um estado mais profundo de felicidade. Algumas pessoas encontram essa espiritualidade através das organizações religiosas. Outras encontram-na na Meditação. Provavelmente, já ouviu falar de Mindfulness ou conhece alguém que pratica outros tipos de Meditação. Está na moda e não é por acaso. Hoje sabemos que a Meditação promove o bem-estar, porque tem o potencial de ajudar a reduzir o stress e a ansiedade, e porque nos ajuda a apreciar as pequenas coisas. É como se passássemos a viver a vida com genuína capacidade para nos importarmos sobretudo com o que importa, em vez de nos deixarmos engolir por todos os problemas. A espiritualidade pode acrescentar perspetiva, esperança e a sensação de que há um bem maior que nós mesmos, e isso traz resiliência e otimismo.
  • Reconhecer as nossas qualidades. É um clichê, mas é verdade. Todas as pessoas têm um conjunto de qualidades e defeitos. Quando aprendemos a reconhecer o nosso potencial, quando conhecemos aquilo que faz de nós únicos e especiais e nos focamos nisso mais do que em exercícios de comparação com os outros somos mais felizes. Há metas que jamais alcançaremos e há características que nunca teremos. E está tudo bem. Da mesma maneira, há características nossas que até podem trazer desvantagens, mas que também nos trazem uma força única.
  • Praticar a gratidão. Isto implica que nos esforcemos diariamente para encontrar motivos, pelos quais possamos sentir-nos gratos. Implica que prestemos genuinamente atenção ao momento presente e que reconheçamos o valor dos gestos, das pessoas e das relações que fazem parte da nossa vida – por oposição a dá-los como garantidos. Quando conseguimos disciplinar-nos – por exemplo, através de um “Diário de Gratidão”, que é um dos exercícios terapêuticos que mais frequentemente proponho em terapia – os efeitos podem notar-se ao fim de algumas semanas: sentimo-nos mais próximos, empáticos e calorosos para com as pessoas que nos rodeiam; prestamos mais atenção às necessidades das pessoas de quem gostamos; sentimo-nos mais relaxados e capazes de gerir as emoções (positivas e negativas); o sono e o sistema imunitário melhoram; e sentimo-nos mais motivados para a prática de exercício físico.

Em resumo, as pessoas mais felizes não vivem obcecadas por bens materiais. Pelo contrário, apreciam os pequenos prazeres da vida, como o contacto com a natureza, as festinhas que fazem ao seu animal de estimação ou a possibilidade de tomarem um chá enquanto têm uma conversa significativa com alguém de quem gostam. Cuidam de si e cultivam uma atitude compassiva em relação aos outros.

Cláudia Morais -Psicóloga e terapeuta familiar
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